AMIGUINHO DE PELÚCIA



Samanta tinha apenas cinco anos, era filha única de Gilmar e Alessandra. Seus pais se separaram quando ela tinha apenas dois anos, mas disso ela não se lembrava. Apenas lembrava-se que tinha de revezar de casa de tempos em tempos. Alessandra era professora do ensino médio e trabalhava o dia todo. Gilmar era dono de uma oficina mecânica que ficava na garagem de sua casa.
Quando ficava na casa de sua mãe Samanta ficava com uma babá até que sua mãe chegasse. Quando estava na casa de seu pai ficava a maior parte do dia sozinha enquanto ele trabalhava na oficina.
O quarto de Samanta na casa de seu pai era pequeno e mergulhado na escuridão, porque seu pai não permitia que dormisse com luzes acessas. Na casa de sua mãe as luzes da sala de estar e da cozinha ficavam quase a noite toda acessas, pois sua mãe tinha provas para corrigir e aulas para panejar, ou simplesmente porque tinha companhia. Isso fazia com que as sombras que se formavam no chão de seu quarto criassem formas estranhas que e moviam e iam parar debaixo de sua cama. Ás vezes, quando ia para a casa de seu pai sentia que aquelas formas estavam ali, embaixo da cama , espreitando por uma chance de atacar.
Samanta dormia sempre com os cobertores até as orelhas para se proteger do monstro sem forma que vivia embaixo da sua cama, até que um dia sua babá lhe deu um ursinho de pelúcia e um filtro de sonhos, que era para ela ter companhia à noite e que não tivesse sonhos ruins. Samanta pendurou o filtro de sonhos na sua cama que ficava na casa de sua mãe e conseguiu dormir mais tranquila com o ursinho perto do pescoço.
Certo dia, quando estava na casa de seu pai, acordou no meio da noite ouvindo alguém falar. Não se atreveu a abrir os olhos, se encolheu agarrada ao urso e com o corpo todo dolorido de medo. Tremia até os cabelos. Então a voz foi embora e ela custou a dormir de novo.
Outro dia, ouviu uma voz sussurrar em seu ouvido, era o monstro que fazia um zumbido, sussurrando palavras que não se podia pronunciar. Nesta noite, como sempre fazia, seu pai lhe deu um copo de leite quente e ela dormiu, esquecendo-se completamente do monstro e de seus sussurros incompreensíveis. Acordou no meio da noite sem ar, com as costas molhadas de suor e sentiu que o monstro jogou suas pernas de lado, fazendo-a cair ao lado da cama. Ela tremia de medo e temeu abrir os olhos. Esperou um tempo até que sentiu que o monstro tinha-se ido. Em seguida pulou em cima da cama e cobriu-se inteira com os cobertores.
No dia seguinte, sua avó foi busca-la na casa de seu pai com outras pessoas que não conhecia. Sua avó a abraçou e a examinou inteira, com os olhos molhados e vermelhos.
_ Vovó, por que a senhora está chorando?
_ Minha filha eu vim salvar você desse monstro. Agora você vai ficar comigo. Vai ficar tudo bem.
_ Mas vovó, como a senhora sabia que tinha um monstro embaixo da minha cama??
_ Foi o seu amiguinho, o urso, que me contou.
Então Samanta abraçou o ursinho de pelúcia e foi embora com sua avó. Sentindo-se protegida e segura.


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Esta postagem faz parte do de blogagem coletiva Projeto Mais Que Palavras. O roteiro deste mês foi "Uma menininha tem medo do monstro debaixo da cama dela, mas o que ela não sabe é que ele está ali pra protegê-la dos monstros reais: seus pais". Leia também os textos de Bela Psicose, Meia Hora em Paris, Eu Nomadiando, Floreioss, Janela Singular e A Part of Me.

Jake dos Santos

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